segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MOINHO DE ILUSÕES - PARTE I ( COMPLETA)


 
 
 
 
 
MOINHO
DE
ILUSÕES
 
 
 
 
 
 
 
DELLA COELHO
2016

 
 
 
NOTA DA AUTORA
 
                   Trata-se de uma obra de ficção, porém com uma homenagem singela a meus inesquecíveis amigos, professores e alunos os quais mantive diversos nomes originais ou semelhantes. Também baseei-me em minha própria experiência do magistério e muitas situações descritas neste livro realmente aconteceram, claro que pela estética foram romanceadas.
                   Gostaria de destacar que esta obra foi escrita em 2009 quando eu ainda morava em Fortaleza- CE. Quatro anos depois, já de volta em Campo Grande- MS, pude experimentar um pouco da “Academia do Bem” que já estava há anos em meu coração e que concretizou-se de certa forma em 2013.
                   Como professora de Literatura, creio que o livro é bom, mas... qual a mãe que acha feio o seu filho?!! Então deixo aos leitores a decisão final!
                   Este livro foi feito especialmente para aqueles que acreditam no Amor e realizam-se somente buscando atingir a sua plenitude. Aqui estão registrados os maiores anseios de uma alma que buscou e busca sempre amar profundamente.
                   Aos racionais espero agradá-los com as peripécias da ingênua professora e com os feitos do honrado doutor.
                   Todos os personagens foram desenhados baseando-me em pessoas que conheci durante a minha vida, exceto os personagens Givan e Adrian, estes encontrei-os somente em minha inspiração.
                   Parafraseando Shakespeare e meu querido Machado de Assis, há muitas coisas inexplicáveis neste mundo e relendo-o para a última correção, tudo o que digo é...
 
 
 
 
 
MAKTUB
 
 
 
 
 

PARTE

 

I

 
 

 

1º CAPÍTULO

 

Era o mês de setembro, a primavera despontava pequenas flores coloridas demonstrando a graça natural e já mostrando a beleza multicor que se apresentaria naquele ano.

A criança acorda sonolenta com a luz que passa pela vidraça que a mãe deixara aberta para que a brisa noturna refrescasse os sonhos da pequena.

Ainda estava na cama envolvida pela doce preguiça, quando lá de fora ouve uma voz bem conhecida de seus ouvidos:

- JACQUÊEE!!!

Arregala os olhos e corre à janela da sala com um sorriso aberto nos lábios ao mesmo tempo em que solta com todas as forças o ar de seus pulmões:

- GI !!! JÁ VOU !!! ESPERA !!!

Mais rápida que Iracema, escova os dentes, toma seu café com leite e até faz seu fiel penteado - a parte da frente de seus longos cabelos cacheados são puxados para trás e presos por um laço de fita branco; assim, algumas madeixas caem pelos ombros deixando seu rosto livre ao mesmo tempo em que emolduram sua face como a de uma princesinha. O escuro de seus cabelos formava um belo contraste com o verde raro de seus olhos fazendo com que quem os visse, rapidamente se voltasse para ter certeza de que eram realmente reais. Conforme a claridade, parecia que a menina era cega, tamanha a estranheza daquele olhar.

-  Vamos! Ande!- já no quintal, a menina, procurando escapar da ordem de voltar cedo, empurra o amigo para fora do portão.

-JA... CQUE... LLI... NE !!!

Jacque suspira aborrecida olhando de cara feia para o rapazinho como se ele fosse o grande culpado da mulher chamá-la.

-  O que é, mãe?

-   Aonde vocês dois pensam que vão tão cedo? - a alta senhora que possui os mesmos olhos da filha, porém de um verde menos raro, olha de um para o outro com as mãos na cintura.

-  Brincar na praça, ué!!!

-  Como é que se diz, mocinha?

Ela abaixa a cabeça e, com a boca em muxoxo, responde:

- Eu posso ir brincar na praça com meu amigo Givan, mamãe?

A madona sorri por dentro, faz uma cara de mais brava e finaliza a dramatização:

- Hum, assim está melhor! E não pense que não percebi a má vontade na resposta, viu?! Na próxima vez, quero mamãe querida! Pode ir sim, agora são 8 horas, quero que esteja de volta às dez em ponto! Nem um minuto a mais nem a menos, ouviu... Jacquelline?!!

Os dois já corriam em disparada.

Uma sombra passa por aqueles olhos maternos enquanto D. Rosa observa-os desaparecerem de suas vistas. Procura afastar qualquer preocupação, é muito cedo ainda, há muitas coisas a fazer durante o dia.

A praça fica a poucos quarteirões dali e ocupa o espaço de toda uma quadra. Diferente das outras da cidade, aquela era cheia de escadas; pois o local ficava em uma grande descida. Normalmente era muito visitada por babás e pais que levavam seus filhos para brincarem e maravilharem-se com a fonte luminosa que ficava bem no centro. Com isso, só sobrava isolado, sob uma árvore, um banco vazio que ficava lá embaixo na ladeira, meio escondido por arbustos e algumas flores.

Era ali que se sentavam.

Na praça, ali era o lugar dos dois amigos.

Correram até o banco de costume e se jogaram em meio a risos e brincadeiras.

Cansados de tanto gargalharem, Givan observa que Jacquelline olha as borboletas beijarem o perfume das flores recém-abertas pela nova estação. Pensa, nesta hora, que a amiga é saltitante e colorida como aquele inseto. O pensamento o faz rir no silêncio raro que reinava entre os dois. O som inesperado despertou a menina que quis saber do que se tratava aquela risada sem a participação dela.

-  O que foi?

-  Nada!

-  Conte A-GO-RA!

-  Não conto não!

-  Gi, conte... por favor!

-  Ah... bom... agora sim, falou a palavrinha mágica por favor!

Ela espera alguns minutos.

-Então...?

-  ...então o quê?

-   GIVAN GALLE !!! QUER FAZER O FAVOR DE CONTAR POR QUE VOCÊ ESTAVA RINDO!!!

-  Ah... isso! - ele cai na risada e continua calado.

-  Por que você faz assim comigo? Não quer contar, não conte então!!!

Quando percebe que a amiga ficou realmente chateada; ele, já sem achar tanta graça, acaba explicando:

-É que você parece as borboletas!

-Borboletas? Eu?!!

-É, você não para igual a elas.

- Ah é?!! Borboleta então?

Abriu os bracinhos como asas e saiu saltitando, correndo, pulando entre as pessoas.

- Gi...Vem voar comigo, vem!!!

O menino ficou ali esperando que sua borboleta retornasse ao jardim.

Enquanto isso, ria e tentava entender por que achava Jacquelline tão diferente das outras meninas da idade dele.

Lembrou-se, então, de quando a viu pela primeira vez. Fora realmente um encontro inusitado.

Embora em uma cidade pequena todos se conhecessem, ele ainda não tinha idade suficiente para ter acesso a todos os lugares e pessoas. Foi muito interessante, estava na primeira série da alfabetização e frequentava o Colégio Cristóvão Colombo.

No pequeno município, uma das poucas atrações turísticas que havia era um antigo casarão que pertenceu ao fundador do lugar. Inclusive, o nome da cidade - Moinho de Ilusões - fora inspirado no velho moinho que ainda estava em pé nos fundos da construção.

Certa vez, a escola organizou uma visita ao tal local para alunos do 1º Ano que fariam um trabalho sobre a fundação da cidade. A professora já tinha explicado, no início do bimestre, que no século anterior o casarão abrigava os únicos moradores da região, os Dutra; explicou ainda que, além de usarem a inusitada construção para moer grãos, ela fora também desenvolvida para serrar madeiras utilizadas na implantação da ferrovia que passaria pelo local. Isso trouxera prosperidade a essa família e atraíra outras que ali chegavam em busca de trabalho na construção da estrada de ferro.

Aquele menino de olhos azuis, pele branca e cabelos negros fazia parte da turma da escola e, como todos no passeio, encantava-se com os móveis antigos, com o relógio que marcava eternamente 18h, com a banheira enferrujada e, principalmente, com a imagem que aparecia pela janela lateral de um dos quartos do fundo.

Atraído pela visão, sem que ninguém percebesse, desvencilhou-se da gritaria e falação da criançada e vislumbrou-se em pé, diante daquela Torre enorme - restos do antigo moinho - que apontava para o céu como se fosse uma seta para as nuvens. Percebeu, pelas aberturas como janelas, que era composto de três andares sendo que, no último, a abertura era tão extensa que deveria permitir que ele visse até sua casa lá embaixo.

Quis desesperadamente conhecer o terceiro andar da Torre.

Com a entrada aberta, alcançou rapidamente a escada que o levaria ao piso superior e, dali, através de uma das janelas que vislumbrou lá de baixo, pôde ver que ninguém dera por falta dele ainda. Já no seguinte, viu a escada que o levaria ao terceiro andar; tomou coragem e subiu.

Lá em cima, qual foi a sua surpresa ao ver uma menina, um pouco menor do que ele, virada de costas, imersa em pensamentos e, no mais absoluto silêncio, contemplando a imagem à sua frente. Não poderia dizer quanto tempo permaneceu ali sem conseguir desviar seus olhos para a paisagem.

Percebeu, de repente, um leve movimento naqueles longos cachos e deparou-se com dois grandes e belos olhos verdes arregalados:

-  Que susto!

-  Oi.

Uma fileira de dentes de leite ilumina a face de mármore:

-Oi. Você veio com essa turma do Colombo?

-  É, vim sim.

-  Como é seu nome?

-  Givan.

-  Quantos anos você tem?

-  Logo farei 8.

-Nossa, você é mais velho do que eu!...Vem cá, vem! Sente aqui comigo, me dê sua mão e olhe lá embaixo... aquela ali é a casa da minha vó, ela mora sozinha porque meu avô morreu antes d’eu nascer, os pais de meu pai também já morreram faz tempo, só tenho mesmo minha vó de vó ...a minha casa não dá pra ver daqui não... Gi, está vendo agora aquela nuvem no céu?...não parece uma Estrela? Você não acha? Eu queria tanto ver as Estrelas daqui, deve ser lindo à noite! Mas meu pai nunca deixaria eu sair de casa depois do pôr do sol...

-   Podemos ver, então, o pôr do sol daqui. Também deve ser lindo! Eu amo o pôr do sol.

No meio da Torre, no terceiro andar, havia algo como uma caixa d’água feita de cimento tomando toda a parte central parecendo uma espécie de cama redonda à altura do início das janelas e acompanhando o formato circular do edifício de tijolos à vista. Era de grande valia para nossos visitantes, já que podiam sentar-se e até deitar-se sobre o grande bloco. Já as janelas eram verdadeiros quadros abertos possibilitando a visão de toda a cidade, algumas fazendas e ainda pequenos vilarejos da região. Se deitassem e olhassem para cima, avistariam o velho traçado das madeiras que seguravam o teto feito de telhas romanas.

Os dois estavam sentados um ao lado do outro, com as pernas trançadas como a meditarem, conversando sem parar como velhos amigos.

-  Você vem aqui comigo?!... Amanhã à tarde, tá?

-  Claro, eu moro aqui perto, combinado então... - franziu a testa -... como é mesmo seu nome?

-Jacque. - sorrindo ela completa - Jacquelline! Você ainda não tinha me perguntado! Minha mãe diz mesmo que falo demais, acho que falei tanto que você nem pôde perguntar...

Sua voz é abafada por uma série de vozes a chamarem desesperadamente o menino:

-  GIVAN!!! GIVAN!!! ONDE VOCÊ ESTÁ?!!

Ele já tinha se esquecido completamente com quem viera. Antes de ele sair, ela pediu:

-  Não conte pra ninguém que estou aqui, tá?

-  Por quê?

-  Porque só você conhece o meu lugar, Gi. Promete?

Deu de ombros rindo:

-  Tá... tudo bem... prometo! Tenho que ir! Tchau, Jacque!

-  Tchau, Givan.

Ela não desviou seu olhar até que ele desaparecesse pela escada.

Os olhos azuis voltam à realidade sem conseguir entender o que fazia aquela menina ser realmente uma borboleta.

Não conseguia entender ainda em seus 10 anos de idade, mas um dia ele saberia.

 

2º CAPÍTULO

 

Desde a visita do colégio ao casarão, há alguns anos, eles ainda não haviam conseguido ir à tardezinha para a Torre; embora sempre fugissem para aquele local.

Certa vez, porém, o pai da menina foi levar a esposa para uma consulta médica de rotina na metrópole vizinha e a filha ficou aos cuidados da avó, que aceitava bem mais os caprichos da única neta. Enfim, o tão esperado entardecer seria apreciado pelos jovenzinhos.

Ainda não eram dezessete horas e Givan já estava ansioso pela chegada de Jacque. Em aproximadamente uma hora, lá de cima, pôde vê-la correndo para subir até aonde ele estava.

-  Gi, desculpe, minha vó não queria me deixar sair antes de acabar a lição.

-  Nossa, cheguei mesmo a pensar que você não conseguiria de novo!

-   Na minha vó? Lá é bem mais fácil, né? Ela acha que meu pai exagera. Aliás, todo mundo acha isso, menos ele !!! E naquela vez ele chegou bem na hora que eu pulava a janela! Lembra que eu fiquei de castigo por cinco semanas?! Sem contar a bela grade que enfeita meu quarto! Sem comentários!

-   Jacque! Não fique tão aborrecida! Pense o lado bom, é mais difícil um ladrão entrar na sua casa!

Fazendo cara de nojo:

-   Até parece! Gi, eu já tenho 13 anos, não sou mais uma criancinha! Sou estudiosa, odeio drogas, nada de namoros! Sei me cuidar, você me conhece!

-  Fazem isso porque amam você!

-   Não poderiam, então, me amar um pouco menos? Nunca imaginei que amor demais pudesse fazer mal!

-   E não faz mesmo! Abaixe as asas, Borboleta. - ele sabia acalmá-la, era só chamá-la pelo apelido de criança que a fazia sorrir.

-  Agora me fale de você... sua mãe está mesmo grávida?

-  Não, pelo jeito serei filho único para o resto da vida... assim como você!

-  Sinto muito, sei o quanto vocês queriam um bebê em casa!

-Tudo bem, Jacque! Deus sabe o que faz! Deve ser melhor assim! Talvez seja importante sentirmos que a maternidade depende, principalmente, da vontade Divina. Agora, já que é impossível minha mãe engravidar, meus pais vão aceitar a proposta daquela multinacional, como disse minha mãe... é irrecusável!

- Você vai embora então? – a amiga pergunta assustada.

- Não, eu não! Só sairei daqui quando me formar!

-  Já sei... seguirá pelo mundo!... e eu vou sair voando atrás de você!

-  Se não vier voando, coloco você em uma gaiola e trago junto comigo! – após pararem de rir um pouco - ... ficarei com meus avós, Jacque!

-  Ah, meu amigo... sentirá muita falta de seus pais, eu sei!

-Claro que sim, mas se for melhor pra eles, tudo bem! Já não sou nenhuma criança. - olham-se alguns instantes com carinho - Venha, vamos ver o nosso pôr do sol pela primeira vez em nossa Torre.

- É, Gi, depois de tantas tentativas... estamos aqui finalmente.

Ali permanecem em sagrado silêncio assistindo ao sol-pôr. Somente a brisa marron-amarela do entardecer cobre o inesquecível momento. Às vezes, olham-se descobrindo-se... cada um tentando entender como o outro podia ter tamanha beleza!

Às vezes... as palavras escapam...

-  Gi...

-Oi...

-Você promete não ver o pôr do sol aqui com nenhuma outra amiga?

-    Prometo. - ele sorriu imaginando que não conheceria outra menina maluca igual àquela que teria coragem de subir naquele lugar tão velho só para ver o entardecer.

Às vezes um suspiro atravessava o ar...

-  Gi...

-  Oi...

-Você promete que, quando formos maiores e livres, você me trará aqui para vermos as Estrelas?

-  Tá.

-  Tá, não! Tem que prometer.

-  Tá bom.

-  Tá bom o quê?

-  Tá, prometo.

O sol já estava quase se pondo.

- Gi...

-Hum...

-  Você já viu o Mar?

-  Já, Jacque.

-  e? - ele permanece em silêncio... - Fale, Gi!

-  Não dá.

-  Como assim não dá?

-   É que ele é... Ele é... a coisa mais linda que a natureza já fez... não dá nem pra explicar!

Os dois sorriem.

Diante da beleza do ocaso estavam de mãos dadas como sempre ficavam em momentos assim.

-  Gi...

-  Oi...

-  Promete me levar um dia pra ver o Mar?

-    Você está me fazendo prometer demais! Meus avós dizem que uma promessa é algo muito sério e que a Bíblia diz que não devemos prometer nada!

-   Minha professora de catequese disse que a Bíblia diz que não devemos JURAR, ela nunca falou nada de PROMETER! Mas tudo bem!

Alguns minutos depois...

-   Gi, vamos inventar uma palavra pra nós dois que tenha um significado muito forte e que não possamos descumpri-la jamais? Assim, não desobedeceríamos nem a seus avós nem à Bíblia.

- Bem... legal! Deixe-me pensar... posso dar minha PALAVRA DE... HOMEM ?!

- Não, que eu sou mulher, fica chato! PALAVRA DE ...VERDADE ? ... não! PALAVRA DE... MORTE ? ...

-   ...credo!!! Claro que não!!! Precisa ser uma palavra bem forte tipo... Já sei! PALAVRA DE VIDA!... Pronto! É a palavra que só não cumpriremos ou mentiremos se estivermos mortos.

-  Certo, então, de hoje em diante, se dissermos PALAVRA DE VIDA terá que ser verdade, temos de cumprir e nada pode descumpri-la, somente a morte. Podemos deixar de dizer a frase. Nenhum dos dois pode obrigar o outro a falar; mas, se disser, terá que ser verdadeiro. Doa a quem doer, combinado para sempre?

-  Combinado.

-  PALAVRA DE VIDA?

-  PALAVRA DE VIDA!

Quando pararam de rir da brincadeira séria dos dois, Givan viu os olhos verdes de Jacquelline a fitarem os seus, segurou firme aquelas mãos e olhou bem para aquele rosto como se quisesse guardá-lo pelo resto de seus dias.

- PALAVRA DE VIDA, Jacquelline, que, quando crescermos, eu a levarei para conhecer o Mar.

E a escuridão logo desceu àquele lugar.

 

3º CAPÍTULO

 

Jacquelline e Givan moravam razoavelmente próximos já que, em uma cidade pequena, tudo é perto. Porém, estudavam em colégios diferentes.

Ela amava a escola que cursava o ginásio. Lá possuía muitos amigos e amigas. Era uma excelente aluna, fazia teatro, participava do time de vôlei e era líder de sala. Todos adoravam seu jeito espevitado, como dizia sua avó. Difícil para seus colegas era não gostarem da presença dela.

                A menina de verdes olhos era aquele tipo de pessoa rara que não somente olha às pessoas, mas as vê. Ao enxergar qualquer lampejo de tristeza, solidão, necessidade, põe-se prontamente como conselheira, companheira - verdadeiramente uma amiga! Faz isso a velhos conhecidos e também a recém-chegados, os quais enternecem seu coração por pensar que os mesmos sentem-se estranhos em terra diferente. Assim, conhece muito bem quase todos os moradores jovens do lugar.

Mas somente aquele a quem dividiu seu precioso lugar é que a conhece realmente.

Neste início do ano letivo- último que Jacque passaria na escola, pois já cursava o 3º ano do Ensino Médio- uma recém-chegada andava movimentando o colégio CEMI, seu nome é Gizele e entrou para a escola de Jacque. Como sempre, esta fez as boas-vindas à nova amiga e adotou-a para apresentar e enturmá-la até na cidade - se preciso fosse. Acontece que a outra não necessitava de tanto esforço assim, pelo menos na parte masculina, já que é uma daquelas musas que nasceram provavelmente no momento em que a natureza continha toda graça e beleza à disposição da mais nova concepção. Apesar de loira, olhos azuis, o que realmente encantava os rapazes era seu corpo que já possibilitava a visão de uma verdadeira ninfa que desponta. Enquanto a primeira desperta o carinho angelical e amigo de todos, a segunda arranca suspiros e pensamentos pecaminosos por onde passa.

Jacque participa da admiração que Gizele extrai. Não pelos mesmos motivos, claro; mas admira seu conhecimento e esperteza que, aliados à simpatia daquela, faz com que a amizade cresça cada dia mais. Com quase dezessete anos, Jacquelline parecia ter menos idade enquanto Gizele, um ano mais nova, aparentava já possuir a maioridade.

As duas encontram-se, diariamente, nos intervalos e aulas vagas:

-  Jacque !!!

-  Oi, Gi... e aí? Sua mãe deixou você ir lá em casa hoje?

-  Não! - Gizele fala fingindo um olhar entristecido.

-  Ahhh - Jacque fica arrasada, sem acreditar na resposta.

Mas, de repente, a loirinha abre um enorme sorriso:

-  Mas deixou... AMANHÃ !!!

-  PERFEITO !!! PERFEITO!!!

As duas gritam, e pulam, e se abraçam, fazendo a maior festa arrancando olhares curiosos. Despedem-se combinando os detalhes para o dia seguinte que será um feriado municipal por marcar o início da ferrovia e o nascimento da cidade.

Jacquelline, após chegar do colégio e almoçar, normalmente passa as tardes estudando com Givan; depois os dois seguem visitar seus lugares e Jacque retorna para olhar as Estrelas pelas grades de seu quarto. Seu pai já está menos rígido, graças às intervenções da esposa, embora raramente deixe a única filha sair à noite e nos finais de semana. Quando isso acontece, pode ir somente acompanhada por Givan e depois do patriarca ter confirmado e aprovado o roteiro do passeio.

Jacque estava ansiosa para contar ao amigo sobre a visita que teria. Mal terminou de ouvir o diário “Jacquê”, a porta da sala já estava aberta para ele entrar.

-  A Gi vem aqui amanhã!- foi logo dizendo.

-  Ai, meu Deus! Até que enfim vou conhecer a famosa Gizele!!!

-  Vai. Você vai adorá-la!

-   Sei! Espero que sim! O último amigo que você me apresentou parecia um louco saído do hospício.

-  Coitado, ele era super problemático com os pais!

-     E por isso precisava andar só de preto e ouvir aquelas músicas barulhentas horríveis que você não entende nada do que diz, mas sabe que ele reclama do mundo?

-    É verdade, acho que ficou revoltado mesmo de tanto ouvir aquelas porcarias!!!- o riso é inevitável - Pois será legal, Gi ! Mas vai ser uma confusão daquelas a hora que chamar “Gi”, vocês dois vão enlouquecer... ou eu, né?

-  Você não! Mais louca do que já é, impossível, Borboleta!

E caem na risada novamente.

O feriado 20 de março finalmente amanhece e Jacquelline já está em pé por dois grandes motivos: Gizele iria a sua casa e era o aniversário de Givan.

Ele completava 18 anos.

 

4º CAPÍTULO

 

O rapaz morava com os avós desde que seus pais embarcaram para a Inglaterra quando ele ainda tinha quinze anos. Por três vezes já vieram matar a saudade do filho e retornaram à Europa. Claro que realmente sentia essa ausência, mas sempre fora maduro o suficiente para entender as necessidades financeiras de seus responsáveis. Nunca reclamou de tal situação, estava feliz e agradecido pelo amor dedicado de seus avós. Em troca, respeitava e cuidava dos pais de sua mãe - assim como a amiga, os avós paternos de Givan faleceram há muito tempo.

Não prestara o vestibular até agora por sentir-se ainda despreparado e, por isso, iniciara recentemente um cursinho para ingressar na UNESM, a mais respeitada universidade pública do Estado. Seu sonho era fazer Medicina.

Já havia tido alguns envolvimentos amorosos na cidade, nada sério; porém jamais comentou sobre eles com Jacquelline. Por mais íntimos que fossem, sempre que ia tocar no assunto, era como se a desrespeitasse de alguma forma e, então, se calava.

Naquele dia sabia que a amiga aprontaria algo, só não conseguia imaginar o que seria daquela vez. Sempre havia uma surpresa diferente.

Nos primeiros aniversários, quando ainda eram crianças, chegava à Torre e deparava-se com algum bolo de terra com gramas e flores em cima, sem contar as bolinhas de lama em volta. Segundo ela, uma festa de verdade não poderia deixar de ter chocolate.

 Logo que aprendeu a escrever, ela assistiu a um programa de TV e imitou a fã de um artista qualquer. Sem pestanejar, pegou o rolo de guardanapos de papel da mãe –disse que não teria coragem de mexer no de papel higiênico- escreveu um monte de FELIANIVE SARIO AMO VECÉ e entregou-o com um laço de fita igual ao que estava em seu cabelo no dia anterior.

Mas o mais inesquecível foi quando, já mocinha, levou para a Torre a velha vitrola à pilha, um arsenal de velas que pegou no cemitério e marcou para verem o pôr do sol. Chegando lá, Givan até assustou-se ao vê-la em pé entre um monte de velas acesas colocadas no parapeito da Torre. E enquanto tocava sua música preferida – Love is a many splendored thing - Jacquelline, em um vestido enorme da mãe, maquiada, com saltos mais altos que ela, convidava-o para dançar. Naquele dia, ele realmente achou que a amiga devia ter algum distúrbio mental.

Infelizmente, desta vez, demoraria a saber o que ganhou neste dia... e o que perdeu.

 

5º CAPÍTULO

 

A mãe estranhou a filha já estar em pé, vestida e com o quarto impecável.

-  Ué... vai chover hoje?

-  Não, mãe, o dia parece tão claro!

-   Pois acho que vai cair uma tempestade! Nunca vi o quarto da senhorita tão bem arrumado e tão cedo!!!

-  Ah, mãe... hoje é o níver do Gi!

-  Minha nossa, já?

-  Mãe, eu falei a semana toda! A senhora esqueceu?

-  Eu... aniversário do Givan ?... nem lembrei!

-   Mãe, não brinca! Lembra que a senhora que ia fazer aqueles bombons de coração que eu pedi?

-  Eu?!!! Não lembro não!

Jacque ficou branca:

-   Mãe, por favor, eu pedi tanto!- já ia chorar quando a mãe sorri e aponta para o refrigerador.

-  Eita, menina boba! Claro que fiz, estão prontos já. Olhe ali, na geladeira, na caixinha de coração que você me deu pra colocá-los.

-Ah, ufa! – suspirou aliviada abrindo a caixa - Obrigada, mãezinha, estão perfeitos!!! Agora só falta eu arrumar o resto.

-  Que resto?

- Vou escrever letras em cada um com fios de ouro que comprei com o

dinheiro da mesada deste mês. Escreverei A M O V O C Ê.

-  Pra isso você precisaria de sete bombons, por que pediu vinte?

-  Pra eu comer também, né?! Ainda bem que pedi bastante. Como a Gizele estará aqui, dividirei com ela. Vou pegar os fios, já volto!

-  Pra que tanta pressa?

Já de volta:

-  Porque preciso arrumar o resto.

-  Ainda tem mais?

-   Sim, como não bebemos álcool, vou colocar refrigerante naquela garrafa de champanhe que guardei do Natal, lembra? E aí, a senhora vai me avisar quando ele chegar e estarei, no quarto, pronta, quando ele abrir a porta. Vou ligar uma música linda que separei pra ele e farei a surpresa!

-  Como assim “estarei pronta”? Você já está pronta, não está?

-  Claro que não; né, mãe?!!

-  Jacquelline, nada de pegar minhas roupas de novo, por favor!

-  Não, mãe, eu vou usar aquela roupa do Natal, mas com um acessório que fiz especialmente pra esta data. Então, separei a sua somente pra minha amiga.

-  O quê?!!

-  Mãe, a Gizele vai estar aqui também; então, ficaremos lindas pra ele. Por favor, a senhora empresta aquele seu vestido azul? Por favor, mãezinha querida, por favor... por favor!!! – não contou que Gizele fizera questão de usá-lo uma vez que já vira a mãe da amiga usando-o em um jantar beneficente há poucos dias na escola e soube que ficaria perfeito em seu corpo.

Após uma série de beijos e abraços, a mãe finalmente concorda:

-  Mas só o vestido, heim... nada de meus brincos e colares!

-  Pode deixar!

A mãe, pensativa, via a filha absorta na escrita com os tais fios dourados, precisava conversar com ela... não sabia se era o momento... mas aquilo estava indo longe demais.

-  Filha...

-  hum...

-  Sente aqui um pouco.

Jacque voltou-se e viu que a mãe estava preocupada com algo.

-  O que foi, mãe? Preocupada?

-  Sim, filha... preocupo-me com você.

-  Comigo? Por quê?

A mãe dá um suspiro ainda indecisa se deve ou não falar.

-  Mãe, fala! A senhora já está me deixando aflita.

-  Bem... você e o Givan...

-  O que é que tem?

-  Você sabe que ele quer fazer Medicina, não é?

-  Claro que sei, mãe! Torço muito por ele!

-  Você sabe que ele fará faculdade em outra cidade, não é?

-  Sim, sei, em Mourão! Vai ser super corrido, mas eu darei a maior força, estarei sempre pronta pro que ele precisar! Posso até ajudar em algo... não sei ainda... só quero estar com ele nessa hora... Já pensou ele médico, mãe?!...

-   Filha, me escute!... Você sabe que ele pode conhecer alguém... - mas a menina não escutou o final da frase, pois a tão esperada Gizele acabava de chegar e gritava lá do portão.

- JACQUELLINE!!! JACQUEEE!!! CHEGUEI !!!

 

6º CAPÍTULO

 

As duas fazem a maior festa! A visitante conhece o Givan de tanto a outra falar e se sente até íntima dele antes mesmo de vê-lo.

Gizele já sabia da surpresa e logo seria a hora combinada do aniversariante chegar. As duas trancaram-se no quarto em meio a roupas, sapatos, maquiagens, bombons e músicas.

Muito tempo depois, tudo já estava pronto, só faltava aguardar a grande presença. Jacque conferia as letras dos bombons pela última vez enquanto Gizele se olhava no espelho a confirmar se os fios de seu cabelo longo e dourado estavam impecáveis.

-  Jacque?

-   hum... não sei se coloco-os perto da garrafa de champanhe ou se os seguro com uma mão?

- Deixe-os aí e me diga uma coisa. - a loira precisava confirmar suas suspeitas.

-  O quê?

-  Você é apaixonada pelo Givan, sabia?

-  Eu?!

-  Sim, você! Sério... Você sabe disso?

Jacque com um suspiro senta na cama, olha para as pequenas mãos em seu colo e responde voltando– se para a amiga:

-   Sim, eu sei! Eu o amo desde o momento em que o vi pela primeira vez. Acredito mesmo que já o amava desde que nasci, só não sabia definir o que sentia e a quem seria. Acho que sentia que em algum lugar mágico apareceria... assim como foi. Sei lá... loucura, acho!

-  O que vai fazer?

Jacque espanta-se com a amiga:

-   Como assim “o que vai fazer”? Acha pouco amá-lo? E o que é que eu posso fazer além de amá-lo?

-  Alguma coisa, ué! Declarar-se, beijá-lo, agarrá-lo!

-   Você é louca? Jamais faria isso, acho que nem tomando um porre faria algo parecido!

-  Ah, faria sim, minha amiga. Tomando um porre, com certeza, faria!

As duas riram imaginando o ridículo de uma situação assim.

-  Mas, Jacque, você pensa em fazer algo?

-  Não, Gi, o que posso fazer é esperar e continuar amando-o.

-  Esperar o quê?

- Esperar que ele me queira como mulher! Esperar que, assim como eu, ele saiba que nascemos um pro outro. Esperar que ele esteja pronto pra mim.

-  E se isso demorar anos pra acontecer?

-  Eu não sei... nunca pensei nisso.

- Já pensou se ele encontra alguém?- um sorriso estranho pairava em seus lábios.

Jacquelline não consegue responder, está quase chegando a hora da grande surpresa.

 

7º CAPÍTULO

 

Givan entra na casa e é recebido pela mãe de Jacque que fica conversando com ele enquanto bate de uma forma diferente nas panelas fazendo um barulhão danado que repercutiu por toda casa e chegou ao quarto das meninas como um aviso para que ficassem atentas.

O aniversariante chegara!

Ele já sabia que D. Rosa estava proibida de cumprimentá-lo - até a surpresa pelo menos. Isso para que ele pensasse que todos esqueceram seu aniversário. Jacquelline agia assim desde que se conheceram. Ele só se perguntava, às vezes, se realmente ela o achava tão bobo a ponto de acreditar nisso todos esses anos.

 

A sorridente senhora o encaminha ao quarto e ele vai até lá imaginando se a surpresa seria ali, na Torre, no banco da praça, na escola, em sua casa, na Igreja...

Onde seria desta vez? E o quê?

Abre a porta e imediatamente uma música maravilhosa inunda o ambiente enquanto ele olha primeiro para Jacquelline em seu vestido verde - caído nos ombros, rodado, um pouco acima dos joelhos - donde delicadas flores bordadas brilhavam confundindo-se com o brilho de seus olhos. Usava um sapatinho parecendo de cristal e em suas costas ele vê duas asas da cor do vestido - Borboleta!!! Não conteve um sorriso. Ela segura uma taça em cada mão oferecendo uma a ele como se brindasse a sua presença no mundo... a sua presença em seu mundo! Aceitou a taça sem voltar os olhos e sem tirar o sorriso dos lábios. Olhou para o móvel próximo à amiga, onde viu os bombons com a mensagem de Amor e, ao lado, uma garrafa de Dom Pérignon; voltou-se para olhar Jacquelline novamente e o que viu foi uma figura majestosa no fundo do quarto. Parecia um quadro raro. Gizele estava em pé a fitá-lo com aqueles magníficos olhos que se misturavam ao azul do vestido que lhe emoldurava o corpo perfeito. Givan sentiu um calafrio subir-lhe pela espinha e não conseguiu mais tirar os olhos daquela beldade.

Após o término da música, Jacque abraça-o e toma a mão do rapaz para levá-lo até a amiga.

- Gi, esta é a Gi ... e, Gi, este é o Gi.

Sem conter o riso, o belo homem cumprimenta a nova mulher sem deixar de perceber que mais perto era ainda mais bonita.

Os três passaram a manhã naquele quarto. Sentaram-se no chão, próximos ao aparelho de som, e fizeram um verdadeiro piquenique no tapete, esqueceram até de deixar chocolate para D. Rosa.

Dali, abraçadinhos - o rapaz entre as duas belas mulheres- partiram para a casa do aniversariante. Haveria um almoço para ele.

-    Legal você, Jacque!!!- ele disse com um toque de ironia, como se estivesse ressentido com ela.

-  Por quê? O que foi que eu fiz? - falou olhando-o preocupada.

-  A senhora me dá de presente a sobremesa antes do almoço!!!

-   Ah!!!- respira aliviada, pois o que menos queria era aborrecer o amigo com qualquer coisa.

O dia foi muito divertido, mais um aniversário feliz ao lado de Jacquelline. No entanto quem não saía da cabeça de Givan era a beldade loira de olhos azuis.

 

8º CAPÍTULO

 

-  Gi, olhe lá... você está vendo que tem um buraco no teto?

 

-  hu-hum... eles precisam reformar isto aqui.

-  Por mim reformariam todo o resto também. Se eu pudesse, plantaria uma infinidade de margaridas ali embaixo, em volta da Torre, e, por toda varanda do casarão, encheria de orquídeas!

-  Orquídeas e margaridas?- ele fez uma careta.

-  Sim, ué...o que é que tem?

-  Sei lá... parece que não combina muito.

-   O único problema disso tudo, até de só reformar aqui, é que os outros descobrirão nosso lugar e virão sempre pra cá. Mas, daí, fecharíamos a Torre só pra nós. - ela riu com a ideia - ... e quem a gente quisesse que passasse, né?!

-  é... pode ser...

-  e nossa Torre seria mesmo sagrada!

-  É.

-  Gi, qual é o problema? Eu sei que você não está bem.

Os dois estavam deitados olhando para o teto da Torre de mãos dadas. Neste momento, ele se deita de bruços olhando para ela e sorrindo.

-  Nada! E a Gizele?

-  Ah... ela adorou você! Quem não o adora, né?!

-  Também gostei muito dela...

-  Eu não disse?!!

-  ... e quando ela volta aqui?

-  Não sei, a mãe precisa deixar.

-  Quantos anos ela tem?

-  Dezesseis.

-Só isso?!! É dois anos mais nova que eu e um ano a MENOS que VOCÊ?!!!

-  Não parece, né?

-  Não mesmo!!!

Jacque percebeu uma ironia estranha na voz dele.

-  Não entendi seu sarcasmo.

-  Ué... nada... só disse que não parece, você parece mais nova que ela... só  isso!

-   Nossa... você está estranho mesmo, não falei? Deve ser a idade... está ficando velho!

O riso retoma a antiga afinidade entre os dois.

-  Sábado é a festa do colégio, lembra? Por favor, Gi, me leve... por favor! Faço qualquer coisa!!! Até resumos de História pra você...

-   Tudo bem, eu vou! E esquece os resumos, não precisa. Pode deixar, falarei com seu pai.

Agora é a vez de Jacque se levantar e olhar para ele:

-     Tão fácil assim? Você está realmente diferente! Mas... adorei!!! Obrigada!!! – termina a conversa com os famosos beijinhos e abraços de agradecimento.

O futuro universitário era muito responsável para dirigir um carro sem carteira de habilitação, que agora poderia obter já que acabara de atingir a maioridade. Sem ela, no entanto, levava e trazia Jacquelline a pé para casa. Sorte deles é que tudo era muito próximo. O clube onde seria a festa era mais perto da casa de Jacque do que até mesmo da dele.

 

9º CAPÍTULO

 

Sábado, após toda recomendação do pai da jovem, os dois saem na expectativa de uma noite diferente na pacata cidade. Ambos já têm traçados seus planos para noite, embora com personagens diferentes.

A festa segue seu rumo no clube mais elegante da região. Os bailes, ali, eram muito famosos pelo sucesso de grandes orquestras que encantavam a todas as idades. Jacquelline não parava um minuto sequer de dançar. Adorava, principalmente, as músicas dos anos 60 e bolero. Givan nem tanto, mas não se negava a fazer par com a amiga nos momentos em que a melodia exigia dançar a dois.

Assim que chegaram, foram recebidos por um batalhão de amigos de Jacque que a carregou para o meio do salão, pois a música de Elvis Presley alegrava aquele momento e ela não podia estar de fora.

Os olhos azuis correm o salão à procura de outro par de olhos como os dele. Encontrou-os a fitá-lo. Gizele, sorrindo, veio ao seu encontro e, devido ao barulho, saíram para o jardim ficando próximos a um chafariz. O garçom serviu duas taças de refrigerante e deixou-os a sós.

- Você está linda, Gizele!

- Obrigada, Givan. Você também está extremamente elegante neste sobretudo preto. Intensifica o seu charme.

Beberam sem desviar o olhar um do outro. A música ali não era tão intensa e os dois puderam se conhecer um pouco mais.

Os olhos do homem brilhavam a cada sorrir da mulher e a intensidade do brilho daqueles lábios confundiam-se com as lâmpadas que iluminavam o jardim.

Esquecidos de qualquer olhar vigilante, viram-se abraçados, envolvidos pela música romântica que acabara de iniciar. Apertando aquele corpo junto a si, sem tirar os olhos dos rubros lábios que se entreabriram para recebê-lo na ânsia sensual de feminilidade, cobriu-os sem qualquer vestígio de pudor ou inocência.

Envolvidos um nos braços do outro não puderam perceber um sorriso desfeito por um par de olhos verdes que nublaram-se diante da primeira visão de dor.

A orquestra ainda não terminara a música Without You de Mariah Carey e Jacquelline já estava trancada atrás de uma das portas do banheiro feminino. Ali não sabe quanto tempo permaneceu tentando enxugar as lágrimas que escorriam enquanto a imagem de seu melhor amigo beijando sua melhor amiga não saía de sua cabeça.

Algum tempo depois, pôde se acalmar. Lavou o rosto e abriu caminho entre garçons e cozinheiros. Sem que ninguém reparasse, conseguiu chegar ao portão nos fundos do salão. De lá, alcançou a rua e, segurando seus sapatos, arrastou-se em direção às grades de seu quarto.

O pai dormia profundamente e foi a mãe que abriu a porta para a filha entrar em casa. Esta, de olhos baixos, sussurrou algo como boa-noite e fugiu para o quarto onde entrou e trancou a porta por dentro.

A mãe olhou em volta e viu que a filha viera sozinha. Em uma dor profunda, alerta seu coração que o tão temido momento havia chegado, Jacquelline conheceu a dor de amar em solidão.

Segura entre seus lençóis, Jacque deixa que todas as lágrimas reprimidas naquela noite escorressem livremente em sua face. Aperta o peito com as mãos em punho como se, assim, pudesse estancar o sangue que escorre de sua alma e diminuir a dor profunda que a apunhala. Nada a faz melhorar.

Jacquelline Vale adormece junto ao nascimento do sol.

 

10º CAPÍTULO

 

Givan estava encantado com a mulher em seus braços e o beijo arrebatara todos seus desejos masculinos. Continuaram ainda algum tempo no jardim e, após longos beijos e promessas feitas de um novo encontro, decidiram entrar novamente no salão e procurar Jacquelline.

-    Me leva pra casa, Givan?- ainda está em seus braços e fala entre beijinhos na ponta do nariz do novo namorado.

-  Está bem, deixo a Jacque e depois a levo.

-  Talvez um outro amigo possa levá-la.

-  Não, Gizele, eu devo levá-la.

Afrodite vê-se impotente e concorda:

-  Tudo bem, querido.

Já andavam há meia hora pelo salão e não a encontravam. O rapaz já estava ficando preocupado:

-  Você viu a Jacque, Alexandre?

-   Vi, mas já faz um tempão, veja se ela não está lá com a Valéria Natal. Talvez esteja do outro lado.

-  Valéria, você viu a Jacquelline?

-  Agora não! Faz algum tempo que a vi indo em direção ao banheiro, mas isso já foi há umas duas horas.

Ninguém sabia de nada.

                        - Querido, acho que ela encontrou alguém e está namorando como nós.  

                        Givan ri nervosamente.

-  A Jacque? Ficar com alguém sem falar nada pra mim? Nunca!

-  Ué...você ficou comigo e não disse nada a ela!

Ele não tinha se dado conta disso ainda, reflete por um momento, mas está preocupado demais para pensar mais profundamente na verdade que acabara de ouvir.

-  Vamos embora, preciso procurá-la!

-  Embora? Agora? Não, é muito cedo!

-  Precisamos encontrá-la! Entendeu, Gizele?!!

Gizele já imaginava o que acontecera, conhece muito bem as pessoas e gente como a Jacquelline era fácil demais prever os pensamentos. A amiguinha estava no salão, a música lenta começou a tocar, ela veio buscar o amigo para dançar - como sabia que faziam - e deparou-se com os dois se beijando. Correu para casa chorar as mágoas pelo amado. Pura comédia romântica! Só que isso não era motivo para estragar o seu baile.

Pensou melhor em como deveria portar-se diante do namorado e resolveu suavizar a situação:

-   Querido, vamos fazer assim... vá à casa de Jacque e veja se de repente ela não se sentiu mal e resolveu ir embora sem aborrecê-lo. Enquanto isso, eu fico aqui procurando por ela. Agora, se eu não encontrá-la e ela não estiver em casa, iremos à polícia então. O que acha?

-  Acho que você está certa! Irei até lá e depois volto para contarmos o que descobrimos.

-  Oh, querido...

Despedem-se com um rápido beijo nos lábios.

 

11º CAPÍTULO

 

D. Rosa ainda está perdida em pensamentos contemplando a noite pela vidraça da janela da sala quando percebe uma figura conhecida abrir o portão e dirigir-se à entrada. Antes que batesse, ela abriu a porta:

-  Boa-noite, Givan. Jacquelline está bem, fique tranquilo.

-  Mas... o que houve? Por que ela veio embora sem me avisar?

-   Ela estava com dor de cabeça... muita dor de cabeça! E não encontrava você no salão. Precisava, urgentemente, de uma aspirina. Pediu para que eu me desculpasse. Disse que estará melhor amanhã.

-  Posso vê-la?

-  Melhor não... ela acabou de dormir. Outra hora vocês conversam.

O rapaz ainda hesita, mas desiste:

-  Boa- noite, Dona Rosa.

-  Boa- noite, Givan.

A mãe retorna à sua poltrona e fica olhando pensativa para o rapaz que desaparece na escuridão da madrugada.

O cansaço toma conta do corpo do jovem que passa no clube rapidamente e segue sozinho para casa. A namorada disse que havia combinado com a mãe de esperar a vizinha para ir com ela já que não sabia que ficariam juntos e a outra queria ficar mais algum tempo no baile.

O rapaz acaba tendo uma noite estranha, perturbada e não sabe por quê.

Sente que algo não está bem... Devo estar adoecendo... deve ser gripe... é... deve ser mesmo uma gripe muito forte!

 

12º CAPÍTULO

 

Nos dois dias que se seguiram à trágica noite, Jacquelline mal saiu do quarto. Falou à mãe que estava doente, possivelmente com virose, e que não queria ver ninguém para não passar a doença aos outros.

D. Rosa fingiu acreditar e desde então tem evitado as visitas para a filha. Mas já era o terceiro dia, hora de ressuscitar. Precisava fazer alguma coisa.

-  Filha, abra a porta.

-  Está aberta, mãe... pode entrar.

Encontra Jacquelline, de pijama, deitada na cama, olhando o dia lá fora pela vidraça ainda fechada.

- Vamos abrir as janelas, filha... precisamos de novos ares.

Só, então, Jacquelline volta os olhos inchados para a mãe:

-  Tanto faz, mãe.

Após refrescar o quarto, a sábia mulher senta na beirada da cama, segura as mãos da filha e resolve que é hora de falar:

- Filha... eu sei o que aconteceu.

Estranhando:

-  Sabe?...Como?

-   Não sei exatamente, mas imagino... Eu sei o quanto você o ama. Givan estava com alguém, é isso?

Jacque abaixa os olhos que se enchem d’água.

-  sim... com a Gizele.

Por essa a mãe não esperava. Então foi pior do que ela imaginara. A filha sentia-se traída pelos dois melhores amigos que tinha.

-   Entendo, filha. Sei o que você deve estar sentindo... mas... você alguma vez contou seus sentimentos ao Givan?

-    a ele não, mãe... nunca tive coragem. – cansada continua após um suspiro - mas ela sabia o que eu sentia por ele.

Silêncio.

-   O que dói, filha? É a traição de uma amiga que ficou com o rapaz que você ama?

Jacquelline mexe a cabeça negando, novamente os olhos estão rasos d’água.

-  O que me dói... é perdê-lo.

-  Filha, mas você não perdeu nada!

-  Perdi, sim, mãe... nunca, jamais terei coragem de tirá-lo de alguém....

-  filha...

-  e... se ele ficou com alguém, é porque não me ama.

-  filha... às vezes amamos alguém e não sabemos que amamos.

-  Como pode, mãe? Como não saber que sente um sentimento tão grande assim?

-      Alguns não conseguem ver o que sentem, filha... alguns não conseguem....

Sabia que a filha não entenderia o que nem ela entende muito bem.

Deixou que a menina se aconchegasse em seu colo para dali nascer  novamente para os novos rumos que sua vida iria tomar.

 

13º CAPÍTULO

 

Nesse mesmo dia, Jacquelline ligou para Gizele e pediu que viesse até sua casa para conversarem. Esta conseguiu autorização da mãe e em menos de uma hora estava na presença daquela.

Jacquelline passou a usar todo seu talento teatral para as decisões que tomaria dali em diante.

- Oi, Gi... fiquei tão doente do baile pra cá. Tudo bem? E as novidades?

Gizele tenta observar algum brilho irônico ou sarcástico no olhar de Jacque, mas não consegue:

-  Tudo! Preciso contar uma coisa que está me deixando muito apreensiva.

-  Conte.

-  Eu e o Givan estamos namorando desde o baile, você sabia?

Jacquelline busca todas as forças de sua alma e sorri abraçando-a.

-  Que legal, Gi... Só espero que você o faça feliz!

-  Mas... Jacque...

-  ... mas o quê?

-  ... e o que você sente por ele?

-   Ah... não se preocupe! Aquilo que conversamos era somente coisa de criança! Cheguei a pensar que ele era o homem da minha vida, mas isso é bobagem... claro que não. Somos somente amigos, nada mais!

 

-  Sério?

-  ... sério.

-  Você não está brava comigo?

-  Claro que não... essas coisas do coração não se escolhe. – nesta resposta, ela estava sendo totalmente sincera.

-  Bem... então, se você não o ama, mas é amiga dele... me ajuda então?

-  Ajudar?!!

- Sim, ué... você não disse que não o ama? Então, pode muito bem me ajudar.

-  C-Claro – por essa Jacque não esperava.

-  Se não me ajudar é porque ainda gosta dele.

- T-Tá... ajudo, sim.- suspira a antiga menina de laços de fita e olhos cor das matas.

Jacquelline inventa uma desculpa qualquer e Gizele vai embora dali.

Ainda faltava a parte mais difícil.

Já estava no portão quando ouve a mãe chamá-la.

-  Aonde vai, filha?

-  À Torre, mãe.

 

14º CAPÍTULO

 

Os olhos azuis parecem querer sorver a alma dos esverdeados.

-  Fala o que aconteceu.

- Nada, Gi... minha mãe disse que explicou a você. Me senti mal e fui embora.

- PALAVRA DE VIDA?

Ela baixa os olhos em silêncio. A menina está amedrontada demais dele descobrir seus verdadeiros sentimentos que não se dá conta de que algo o está intrigando mais que tudo.

- Você estava com alguém, Jacque? É isso?

A surpresa da garota é tão grande que chega a rir da pergunta.

Observa e percebe que realmente ele não enxergou ainda a imensidão do Amor que sente por ele. Em segundos pensa que talvez a ideia de um outro alguém seja realmente um escudo para preservar seus verdadeiros sentimentos. Assim, ele acreditando que ela é atraída por outros e a namorada dele imaginando que ela não o amava, poderia estar perto dos dois sem expor situações embaraçosas para todos.

- Sim, Gi... talvez tenha alguém.

Givan baixa os olhos rapidamente sem saber que sensação estranha era aquela que tomava conta de seu peito. Era aquela maldita gripe que voltava! Só podia ser!

- Quem é, Jacque?

E agora? Quem ela diria?...pensou, então, em um menino do colégio que sempre tentara algo....

-   O Nato.

-  O Renato?

-  Sim, ele mesmo.

-  Você disse que não queria nada com ele!

-  Porque não sabia que era ele.

-  Que era ele o quê?

-  Que era ele o homem da minha vida.

- E o Renato é o homem de sua vida? – ele parecia incrédulo - Jacque... responde.... é ele o homem de sua vida? PALAVRA DE VIDA que acredita nisso?

Sem fitá-lo, sem confirmar suas palavras, ela sussurra:

-   S-Sim.... acho que sim!- tentando romper a tensão, levanta os braços e sorri - Ah!...Gi... me conte você de seu namoro e...

-   Jacque, como procurou pelo Amor? Como sabe o jeito que esse homem seria? Quem disse que o Renato é o homem de sua vida, pelo amor de Deus?! Enlouqueceu de vez?! Ele é um conquistador barato que já fez a ex-namorada passar horrores em suas mãos e agora escuto essa barbaridade de você?!!

-  Ainda não sei de nada agora não!!! Pare!!! Por favor !!! – estava prestes a romper em lágrimas.

-   Pense em como deve ser o homem de sua vida. O homem a quem se entregará e ficarão juntos até o fim! - passou nervosamente uma das mãos pelos cabelos negros – Jacque, pense bem! Não vá se envolver com alguém como ele, por favor!

Após um longo suspiro, Jacquelline a fitá-lo profundamente, sem se importar com as lágrimas que escorriam, relata um pouco dos únicos sentimentos que jamais tivera coragem de dividir com ele.

-   Givan... eu sei que o homem que eu amo e espero me amará assim que olhar em meus olhos e me reconhecer. Eu sei que ele saberá que a única pessoa neste mundo que o completa e o conhece sou eu e que ele é e será o único que me conhecerá. Sei que ele falará comigo com voz terna e que, quando olhar pra mim, será como se o céu estivesse me fitando. Sei que sentimos um Amor tão profundo que jamais nos esqueceremos... que o tempo e até a morte poderá chegar e, ainda assim, nossas Almas estarão ligadas uma à outra. PALAVRA DE VIDA ... que é ele que eu amo... PALAVRA DE VIDA que ... é ele que buscava ao nascer... PALAVRA DE VIDA que ... é ele que encontrei!

Givan a olha de um jeito diferente como se nunca a tivesse visto antes. Parecia que levara uma bofetada, estava corado e respirando com dificuldade.

- E este homem é o Renato, Jacquelline?

Antes que pudesse responder, ouviu-se uma voz a gritar lá embaixo:

- GIVAN!!! JACQUELLINE!!!! VOU SUBIR AÍ!!!!

Era Gizele que vinha à procura do namorado.

 

15º CAPÍTULO

 

Os dois amigos de infância nunca se sentiram tão pouco à vontade como naquele momento. Gizele, assim que saiu da casa de Jacque, foi direto à dos avós de Givan. Lá, soube que ele fora à Torre conversar com a amiga. Aquela não perdeu tempo e, imediatamente, pensou que seria melhor impor sua presença naquele local sagrado.

Enlaçada ao namorado, Gizele parecia encantada com a visão que tinha da cidade.

-    Nossa! Sempre quis vir até aqui! Você me falava tanto deste lugar, Jacque! Mas é mais bonito do que eu imaginava!

-  Lindo mesmo... a cidade até parece mágica!

-  Você disse que via a casa de sua vó daqui... qual é a dela?

Desanimada, a amiga mostrou ao longe uma casinha simples de madeira, a única daquele quarteirão sem antena de TV no telhado.

-   Minha avó não gosta de modernidade. – explicou ao perceber o olhar curioso da colega.

-   Agora eu sei onde é, já vi a casa de sua vó porque minha mãe sempre visita uma amiga que mora ali perto, a dona Eurides, conhece?

-  Claro, é comadre de minha mãe.

A loira virou-se para o rapaz:

-  Então, querido... você já contou tudo sobre nós pra Jacque?

-  Não, Gizele... ainda não conversamos sobre isso.

-   É que acabamos de chegar... estávamos falando de como passei mal no baile.

- Pois, Jacque... ele me disse que desde a surpresa que não saio da cabeça dele.

O olhar dos dois se encontraram e uma pontinha de tristeza toca o coração dele ao olhá-la, Jacquelline precisa sair antes que seus olhos a traiam.

-  Desculpem-me... mas ainda não estou muito bem... preciso ir.

-  Tudo bem, amanhã a gente se fala na escola.

-  Espere, Jacque... eu levo você.

-   Melhor não, Gi... fique com ela... afinal, é a primeira vez que você se encontra com outra mulher em nossa Torre.

 

16º CAPÍTULO

 

O namoro era oficial e Jacquelline jamais se intrometeria entre os dois.

Mesmo Givan namorando, tentavam ainda ficarem juntos como nos velhos tempos, embora muitas coisas tivessem mudado dentro de cada um.

Nas tardes, enquanto estudavam, percebia várias vezes ele distrair-se e ficar olhando para ela longos momentos. Ela fingia não perceber, não tinha coragem de fitá-lo, pois sabia que seus olhos suplicariam Amor. E isso não tinha mais o direito de pedir já que ele o dedicara a uma outra pessoa.

Algum tempo ela ainda relutou em voltar à Torre, era como se alguém tivesse maculado seu paraíso, mas depois voltara a frequentar o lugar.

Certa vez seus pais haviam feito uma pequena viagem e ficaria novamente na avó. Era a chance que tinham de verem as Estrelas de lá.

Ele a apanhou e foram abraçadinhos até o local que conheciam tão bem.

Permaneceram horas ali, deitados, de mãos dadas, a olharem o céu aveludado que os cobria.

Desta vez o primeiro a cortar o silêncio foi ele:

-  Jacque...

-  Oi...

-  Não a beijei aqui.

-  Tudo bem, Gi.

-  Saímos imediatamente após você descer.

-   Não se preocupe comigo - a voz já estava meio embargada pela emoção que aumentava.

-  Eu não sabia antes, mas... amo você, Jacquelline, e agora sei que me ama também. Tudo o que você disse não sai da minha cabeça... é como se não tivesse visto o que agora está muito claro...

-  por favor...

- Sei que deve ser difícil acreditar, mas é verdade... eu a amo realmente... se algum dia duvidar de meu Amor, é só olhar o céu à noite, enquanto existirem Estrelas no céu ainda haverá o meu Amor por você.

-  Por que então?- as lágrimas escorrem no silêncio.

- É você que eu amo, é você que eu quero, é você que eu preciso, mas não é o momento de ficarmos juntos... não me pergunte... só sei que não é o momento....

Silêncio.

-   ... me espera. - disse acariciando-a com tanto carinho e delicadeza que ela sabia que, se olhasse para ele, seria beijada.

...lágrimas rolam de seus olhos em silêncio...

Não tinha coragem de virar-se!

 

17º CAPÍTULO

 

Os momentos de Givan e Jacquelline eram divididos com a escola, os deveres familiares e o namoro.

Ela praticamente não saía mais nos finais de semana. Algumas vezes, quando havia alguma festa, o casal de namorados a levava ao local e, no horário combinado, voltava para apanhá-la. Enquanto isso, normalmente tentava distrair-se, embora a imagem do beijo no baile e as últimas palavras dele na Torre não saíssem de seus pensamentos.

Enquanto estavam juntos, sozinhos, esquecia-se de qualquer tristeza; mas vê-los entre beijos e abraços estava ficando cada vez mais difícil de suportar.

Tentava manter a amizade com a namorada do amigo na escola, mas ouvi-la falar o quanto era desejada e como eram maravilhosos os beijos de amor dos dois não era nada agradável. E, desde que as duas conversaram, a loira levou a sério o pedido de ajuda que fez para Jacque.

Poucos dias antes da Páscoa, a Sibila conversava com a amiga enquanto esperava o namorado apanhá-la:

-   Jacque, quero muito ir ao jantar dançante que haverá no sábado após a Páscoa, mas ele não.

-  Ah, eu também não quero não.

-  Mas, Jacque, você precisa me ajudar. Por favor, se você disser a ele que quer ir, como seu pai só deixa sair com ele, claro que não negará.

-  Mas eu não quero ir!

-   Bem... depois que ele acertar tudo, no dia, você não vai então. Daí ele não terá coragem de não ir comigo.

-  Eu jamais faria isso com ele, Gizele. Enlouqueceu?

-  Mas isso é ajudar uma amiga.

-  Enganando ele?

-  Olha, está combinado, faremos isso agora, assim que ele vier me buscar.

-  Eu não vou fazer isso!

-  Eu falo com ele, deixe!

-  Olha, o que eu posso fazer é conversar e tentar convencê-lo a levá-la ao  baile.

-    Não... aí é ruim pra mim que sou a namorada. Ele pode ficar meio decepcionado. Como você não o ama, não há problema algum em pedir. Ou você não quer dizer porque ainda gosta dele?

-  Não é nada disso, Gizele. Não é certo isso!

-  Oi, querido – mal o namorado chegou, ela já se jogou em seus braços e o recebeu com um beijo demorado na boca – olha, a Jacquelline está com vergonha de pedir ...

-   O quê?...- Jacque só imagina o que a outra está dizendo, tenta impedir, mas a garota continua.

- ... mas ela quer ir àquele jantar de sábado e pediu pra nós dois a levarmos já  que o pai dela só a deixa sair com você.

- Eu não quero ...

Gizele não a deixa continuar:

-   Ela está com vergonha de pedir, agora que estamos namorando. Mas eu já disse a ela que não há problema. Não é, Gi?

-  Claro que não, eu a levo sim.

Jacquelline não sabia o que dizer, se abrisse a boca seria para insultar a namorada do amigo. Mas isso o entristeceria e era tímida demais, certinha demais com os outros para saber como agir em uma cilada dessas. Sentia-se totalmente impotente.

Mas o pior ainda estava para acontecer.

 

18º CAPÍTULO

 

A ninfa era filha de pais separados e vivia com a mãe. Diferente das famílias provincianas, os limites femininos há muito não existiam para a ferina de olhos cor do céu. A perda da inocência ainda muito jovem deixara-a irresistível à maioria dos homens, mas não era isso que atraía aquele que Jacquelline amava. Ele envolveu-se profundamente com Gizele, gostava dela realmente, gostava muito além da simples atração física - respeitava-a. Não aceitava alguns de seus pensamentos e atitudes e, vendo que isso poderia prejudicá-la, adotou-a como príncipe encantado e acreditava mesmo que deveria salvá-la. Por isso, pedira a seu grande Amor que o esperasse.

A jovem de olhos verdes, já que iria ao tal jantar, resolveu comprar uma roupa nova para a noite. Escolheu, desta vez, algo mais ousado. Nestes últimos meses, as curvas de seu corpo, antes muito magro, começava a despontar. Optou por um vestido verde- escuro que deixava grande parte das costas livre. Na frente, um leve decote saía do tecido que envolvia delicadamente os seios da menina e enlaçava-se atrás do pescoço descoberto pelo penteado. O conjunto era longo e a abertura em uma das pernas realçava as novas linhas de seu corpo. Para a festa, prendeu os cabelos em um coque no alto da cabeça e deixou que caíssem alguns pequeninos cachos próximos à orelha para emoldurar- lhe a face.

Estava belíssima! A criança, enfim, apresenta a bela mulher em que se transformaria.

Haviam marcado às 21 h. Givan e Gizele a buscariam em casa e iriam ao tal jantar.

O pai estava viajando a negócios. Ultimamente não parava quase em casa. Esperava o amigo enquanto conversava sobre o futuro com a mãe:

-  Mãe, mas há a possibilidade do papai ir trabalhar na matriz da fábrica se a daqui fechar?

-  Sim, filha... é quase certa a transferência. Mas vamos torcer pra isso não acontecer! Estão fazendo o que podem pra salvá-la. Mas tudo anda tão difícil ultimamente...

Já eram 21:18h e eles ainda não tinham chegado. Jacquelline, através da janela da sala, não tirava os olhos do portão.

De repente, para um carro e sai alguém em direção à casa delas.

-  Que estranho!

-  O que, filha?

-  ENTRE - a menina grita para alguém lá fora. – Mãe, é o Renato que está aqui... Oi, Nato... aconteceu alguma coisa?

-   Não, o Givan e a Gizele já foram ao jantar e pediram para que eu a buscasse já que estou com o carro de meu pai. Minha nossa, você está linda!!!

- Obrigada! – agradeceu friamente já impondo uma certa distância entre eles.

Mãe e filha entreolharam-se e, após um aceno afirmativo da mãe, aceitou sair com o rapaz, não sem chatear-se com isso. Nunca precisaram de carro!

Ao chegar ao salão já foi procurá-los e encontrou-os com um grupo de amigos. Assim que chegou, Givan pegou em seu braço e buscou um lugar mais reservado.

-  Isso lá é coisa que se faça?!

-  O quê?- ela estava atônita, completamente surpresa.

-   Você pede pra eu e a Gizele trazê-la quando não queríamos vir a este jantar e, na última hora, combina com o Renato pra ir buscá-la?

-  Eu?!!

-  Não, Jacquelline, fui eu!!!- disse com ironia.

-  Em primeiro lugar, eu não queria vir a este jantar!

-   Eu não acredito que estou ouvindo isso de você! Acha que sou louco? Você queria, sim, eu não viria e vim somente pra trazê-la! Você pediu até pra minha namorada falar comigo. Esqueceu que conversamos nós três? A Gizele estava lá como testemunha!

Jacquelline realmente não acreditava no que estava ouvindo! Só podia ser um sonho... um sonho ruim... Olhou para seu melhor amigo e percebeu que Gizele o envenenara contra ela. A loira armara tudo direitinho e fora ELA quem dissera ao Renato para buscá-la, Jacque já havia contado certa vez que o rapaz vivia assediando-a e que Givan o detestava.

O seu erro foi calar-se no dia em que falaram sobre o jantar. Devia ter dito que não queria e que Gizele a estava obrigando a concordar com aquilo.

O pior de tudo é que agora, por mais que dissesse algo, Givan não acreditaria nela. A situação era absurda demais!

Permaneceu calada e ao lado do Renato, ele que era seu acompanhante. Até isso Gizele havia planejado perfeitamente bem. Vai saber quantas coisas mais inventara sobre ela.

 

19º CAPÍTULO

 

Jacquelline passava por um momento de muita confusão.

Seu pai estava prestes a mudar de cidade devido ao trabalho, no entanto ela e a mãe permaneceriam em Moinho de Ilusões, pelo menos, por enquanto.

Mas Jacque queria fugir dali, não estava mais aguentando, estava fraca demais, precisava afastar-se, não conseguia estar perto dele deste jeito! Conviver com a esperança de ser amada e vê-la despedaçar-se era demais para a menina. Ele se afastava a cada dia, vê-los juntos tornou-se ainda pior, a ideia de ela esperá-lo e ele não vir desesperava-a, melhor seria romper de uma vez, tomar por si só os passos do afastamento, pois assim saberia para o que deveria estar preparada e quando.

Fora a decisão mais difícil que tomara na vida e a mais errada de todas.

Passou a evitar os lugares onde costumavam encontrar-se e passou a ter atitudes detestadas por ele. Nas tardes que estudavam juntos, ia em casa de amigos para divertir-se. Nunca mais pôs os pés na Torre e fazia o caminho mais longo à escola para evitar a antiga praça.

Com a mente ainda infantil de menina, conversou com o Renato e praticamente o pedira em namoro. Ele, que há tempos era interessado nela, abraçou essa chance no mesmo momento.

Ela mal conversava com Gizele na escola, passava os intervalos na sala conversando com seus novos colegas, isso quando não cabulavam aula. Tornou-se próxima de várias pessoas que antes evitava contato por terem fama de desordeiros, dentre eles estava o seu namorado. Soube, através de antigos amigos, que o casal tornava-se cada vez mais unido e que os dois passavam as tardes juntos estudando. Com isso, Gizele melhorava suas notas enquanto Jacque passara a fazer parte dos maus alunos.

Como o pai realmente teve de trabalhar fora e a mãe se revezar entre as duas cidades, estar grande parte dos dias sozinha em sua casa ou na da avó facilitara e muito seu novo destino.

Mesmo a distância já instalada entre os antigos amigos, a cidade é pequena, acabaram encontrando-se em uma festa:

-  Oi, Jacque.

-  Oi, Givan.

-  O que está havendo com você?

-  Nada. Estou ótima! Onde está sua namorada?

-    Ela já vem! – olha com desprezo para a antiga amiga - Estou tão decepcionado com você. A Gizele tem me contado o que apronta na escola! Os comentários não param... pare com isso! Você vai se destruir!

-   Gizele conta as coisas a você?- ela dá um sorriso sarcástico - Ótima informante você tem. Parabéns! Dê um recado à sua agente por favor, diga a ela pra não se meter na minha vida!

-  Jacque... o que está acontecendo? Ela só quer ajudar! Sei que está saindo com um pessoal barra-pesada.

- São meus amigos e vá cuidar de sua vida, Givan! Não se meta mais na  minha!

Naquela mesma noite, um dos rapazes do grupo, Rony, sabendo que ficara mal após ter conversado com o antigo amigo, ofereceu um tranquilizante. Como estava muito deprimida e faria qualquer coisa para fugir da realidade, aceitou prontamente. Ele a levou de moto para fora da cidade alegando que ela se sentiria melhor com um passeio. Em sua ingenuidade, Jacque acreditou prontamente. Ele a levou a um campo isolado e a fez sentar- se na grama. Rony molhou algo num lenço e, sem que ela esperasse, apertou, contra a boca e o nariz de Jacquelline, o pano que a fez desmaiar.

Quando a menina acordou, viu aquele corpo de homem em cima dela e, antes que o pano estivesse novamente sufocando-a, soube que ele a violentava.

 

20º CAPÍTULO

 

Ao voltar do desmaio, agia como um robô.

Vestiu-se olhando em volta para ver se sua virgindade sangrara, não encontrou mais nada! Voltaram para junto da turma.

Jacquelline estava ainda em choque, mal conseguia balbuciar alguma coisa. Seus gestos, sua atitude eram totalmente mecânicas. Ninguém estranhou a chegada deles, exceto Leia - a namorada de Rony.

Já era alta madrugada e estavam todos - próximos à escadaria frontal da antiga Estação Ferroviária - conversando, rindo e alguns bebendo. Em um determinado momento, Leia, percebendo que Jacque estava estranha desde que chegara daquele passeio, veio falar com ela sem que os outros ouvissem a conversa:

-  O que houve, Jacque?

-  O Rony me violentou, Leia. - ela não conseguiu se calar.

-  O quê?!!

A namorada do rapaz era uma das poucas pessoas quase sensatas ali. Incrédula, inventou uma desculpa qualquer aos outros e levou a colega para casa.

- Agora me conte tudo com calma.

E a não mais menina, como se falasse de fora de seu corpo, contou tudo o que conseguia se lembrar.

-  Eu não acredito que você fez isso com a Jacque?

-  Fez o que, gatinha?

- Rony, não minta... - Leia não falava, cuspia as palavras - tenho nojo de você!

-    Lé, vem cá, gata! Não fiz nada! – nunca tinha visto a menina tão enfurecida - Olha... eu confesso, tá bom assim? Ela se jogou em cima de mim e sou homem, gatinha! Eu ia falar não? Desculpa,vai?! Ela não significou nada pra mim!

Ele tentou abraçá-la e foi empurrado com tanta força que por pouco não caiu e levou a moto em que estava escorado.

-  Nunca mais olhe na minha cara, Rony; você morreu pra mim!

O rapaz, enfurecido pelo fim do namorado causado pela outra, espalhou na cidade que Jacquelline Vale havia se oferecido a ele e a vários homens.

Muitos, por algum tempo, acreditaram que a antiga menina pura de olhos-verdes era alguém que saía com qualquer um por pura diversão. Algumas famílias de bem até proibiram seus filhos de frequentarem o mesmo ambiente que ela, alguns pais tentaram impedir até mesmo que seus familiares conversassem com a garota. Isso mudaria assim que soubessem quem era realmente aquele no qual acreditaram.

Nos primeiros dias, arrasada, trancou-se no quarto e só recebia as visitas de Leia. Essa, sim, tornara-se uma boa companheira e a defendia quando vinham falar mal de Jacque para ela. Renato soube da história através da ex-namorada de Rony e, mesmo ouvindo a versão verdadeira, nunca mais aparecera.

Era hora de sair da cidade.

Jacquelline, sem despedir-se de mais ninguém além da avó, fez suas malas, trancou a porta de sua casa e atravessou os limites de Moinho de Ilusões sem olhar para trás.

 

Romance de Della Coelho

 (´A continuação será colocada na próxima postagem)